A Sérgio Keuchgerian

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Porto Alegre, 10 de agosto de 1985.

“... isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a
organização familiar...”
Sérgio, não sabia como começar — então comecei copiando essa frase aí de
cima, é Caetano Veloso numa entrevista ao JB, vim lendo pelo caminho, não
consegui me livrar dela.
Agora estou aqui, escrevendo pra você no meu quarto antigo, que minha
mãe conserva tal-e-qual, como se eu um dia fosse voltar para casa. E lá se vão —
quantos mesmo? — sei lá, quinze, vinte anos, qualquer coisa assim.
Chove. Faz frio. E bom estar aqui. Tão bom, Me sinto protegido. Ficamos
vendo velhas fotografias, bebendo vinho e rindo muito. Meu irmão Felipe vestiu
um modelinho de couro negro e saiu “para dar uma prensa numa caixa de
supermercado”. Márcia está tão bonita. E Rodrigo, meu sobrinho, que tem dois
anos e não parece quase me desconhecer. Deixei-os vendo um filme antigo dos
Beatles, Lennon repetindo “d’ont let me down, d’ont let me down” — e agora
percebo que meu inglês anda tão precário que não lembro se é d’ont ou don’t.
Cansado, cansado. Quase não dormi. E não consigo tirar você da cabeça.
Estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer
qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas
coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você, penso em você com
força e carinho. Axé.
Foi mau, ontem. Fui mau, também. Menos com você, mais comigo mesmo.
Depois não consegui dormir. Me bati pela casa até quase oito da manhã. Teria
telefonado para você, não fosse tão inconveniente. Acabei ligando para Grace, pedi
paciência, chorei, contei, ouvi.
Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei
o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos,
tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Dificil explicar. Muitas coisas
duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência.
E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação
bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com
sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras.
Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me
ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a
você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por
que o zen de repente escapa e se transforma em sem? Sem que se consiga controlar.
Te escrevo com um cigarro aceso e uma xícara de chá de boldo. A
escrivaninha é muito antiga, daquelas que têm uma tampa, parece piano. Tem um
pôster com Garcia Lorca na minha frente. Um retrato enorme de Virginia Woolf. E
posso ver na estante assim, de repente, todo o Proust, e muito Rimbaud, e Verlaine,
Faulkner, Italo Svevo, William Blake. Umas reproduções de Picasso. Outras de Da
Vinci. Um biscuit com um pierrô tão patético. Uma pedra esotérica ainda de
Stonehenge, Inglaterra, uma caixinha indiana. Todos os meus pedaços aqui.
E você não me conhece, eu não conheço você.
Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se
não escrevesse.
Zelda, há também o único romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de
Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incêndio, um hospício. Chama-se Save me the
waltz. Reserve-me a valsa, não é lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma.
Please, save me the waltz.
Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não
fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse
pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena. Todas as cartas
de amor são ridículas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava só
começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te
permiti, não nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido “nunca vi essa luz
nos seus olhos”.
Eu não queria saber.
Tão artificial, tão estudado. Detesto ouvir minha voz no gravador ou ver
minha imagem em vídeo. Sôo falso para mim mesmo. A calma, o equilíbrio, as
palavras ditas lentamente, como se escolhesse. Raramente um gesto, um tom mais
espontâneo. Tão bom ator que ninguém percebe minha péssima atuação.
Você compreende tudo isso?
Pausa. Campainha. O jornal de domingo. Desço, outro chá de boldo. Um
comentário de Rubens Ewald sobre Aqueles dois, diz que é “excelente”, fala da
“dignidade e tratamento delicado dado ao tema”. Lembro da crítica de Sérgio
Augusto, de como fez mal por dentro. Já passou.
Quando pergunto você-compreende-tudo-isso não estou subestimando
você. Quando pergunto se você quer que eu leia suas histórias, ah deus, perdoe.
Não sinto agressividade nenhuma em relação a você. E gosto das tuas histórias. E
gosto da tua pessoa. Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções
contraditórias, confusas, somá-las, diminuí-las e tirar essa síntese numa palavra só,
esta: gosto.
Dormi umas três horas e acordei ouvindo Quereres, de Caetano. Repeti, várias
vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor, bruta flor do querer. Discutia tanto com
Ana Cristina Cesar, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? me pergunto
até hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar
sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois
sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários.
O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe
viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o
não-palpável. Você me dizia “que diferença entre você e um livro seu”. Eu não sou
o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.
Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente
se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano
demais — e eu nasci praticamente no campo, até os 15 anos quase no campo, céu e
campo. Não sei se a gente pode continuar amigo. Não sei se em algum momento
cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como
Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e
limpo. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje
não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, essa
frugalidade das emoções. Fico tomado de paixão.
Há tempos não ficava.
E toda essa peste, meu amigo. O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou
a esperança dessa coisa, “esse lugar confuso”, o Amor um dia. E de repente te
proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar
sendo destroçada, proibida, impedida, aos 36 anos, tão pouco. Nem vivi nada
ainda. E não sou, sequer promíscuo. Dum romantismo não pós, mas pré todas as
coisas — um romantismo que exige sexualidade e amor juntos. Nunca consegui.
Uns vislumbres, visões do esplendor. Me pergunto se até a morte — será? Será
amor essa carência e essa procura de amor, nunca encontrar a coisa?
Das minhas heterossexualjdades, dois filhos mortos, não ficou nada. Das
minhas homossexualidades, esse pânico lento e uma solidão medonha. A hora é tão
grave.
Vim pegar energia. Sim. Preciso ver a terra, preciso do horizonte do pampa.
Já começa a agir, meus ombros se soltaram. Olhei no espelho e aquela ruga entre as
sobrancelhas se desfez.
Não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Não vou me
tornar assim. Então vacilo, escorrego e a mania de perfeição virginiana e a estética
libriana no dia seguinte me dizem “que vergonha, que vergonha, que vergonha”.
Eu podia dizer que tinha/tínhamos bebido demais. Eu podia dizer que estava com
tanto medo de vir para Porto Alegre. Eu podia contar a você dos meus últimos
meses, oito, dez, doze horas por dia sobre a máquina de escrever, falando com
quase ninguém. Sozinho, às vezes. Cantando também. Tudo isso, se eu te dissesse,
talvez tivesse ajudado a doer menos em você.
De repente me passa pela cabeça que você pode estar detestando tudo isso, e
achando longo e choroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que
eu seja capaz de sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é
curto, que vou voltar a São Paulo e que talvez não veja mais você. Sei que não fico
assustado demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano
— tudo se ajeita. Menos a morte.
Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você,
uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros.
De não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma
outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum
comportamento. Ser novo.
Quando te falo da idade, quando te falo do tempo — e não tivemos tempo
— queria te falar de Cronos, Saturno, da volta pelo Zodíaco quando se completa 30
anos. A tua estrela é muito clara, tem sinais bons na tua testa. Compreendo teu
Plutão e a Lua encarcerados na Casa XII— as emoções e as paixões aprisionadas
—, e também Urano, todo o impulso bloqueado. Na mesma casa, a do Karma, a
dos espíritos que mais sofrem, tenho também o Sol, Mercúrio e Netuno. Somos
muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente
parecidos. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de
mim — para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua
memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha
precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no
escuro. Me queira bem.
Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você
estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem
nenhuma importância, algumas.
Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito
lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. Mesmo que a gente se
perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro.
Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.
Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo
Caio F.

PS — Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos
descartáveis.
E amanhã tem

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1 comentários:

  1. Lucy Van Pelt says:

    UMA DAS CARTAS DE AMOR MAIS LINDAS QUE EU JÁ LI. SE NÃO FOR 'A CARTA'.
    AMÁVEL CAIO F.