A Luiz Arthur Nunes

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Sampa, acho que 25 ou + ou - isso/junho-84

Luizar, maninho,
estive em PoA para a estréia de Reuniao & trouxe tua cartita supimpa, tá aqui
do meu lado. Tô te mandando junto esta matéria da IstoÉ de hoje, que me poupa
de contar pelo menos as notícias da área teatral — tô meio sem tempo, cheio de
trabalho & inteiramente devasso. Vai daí que muito compreendo todas as lascívias
que me contas... E dou força total. A minha vida sexual tá parecendo uma versão
latino-americana & gay do Mulheres, do Bukowski, ando até pensando num texto
chamado Os homens que eu tive. Mas de ontem prá cá me deu um enjôo total e só
cometi um pequeno felácio.
As côsas mudaram muito e muito rápido: eis que I., o belo, não me quis mais
— quis morrer de dor, mas decidi que sou ótimo. Vem+daí+que (novo gauchês de
autoria de Jackie) fui à luta; Ricardo Blat me passou a casa dele aqui em Sampa — a
dois passos do Ibirapuera —, com o básico dentro — e eis-me aqui há cerca de
dois meses, nem tanto, perfeitamente instalado. Neste exato momento, meio-dia de
um domingo, estou inaugurando a escrivaninha que comprei sexta num Lixão. E
lindimensa. Na minha frente tem seis rosas brancas com uma foto de James Dean.
Pela janela vejo a roupa que lavei de manhã — uma camisetinha Velô (do Caetano),
outra Ritchie, um macacão branco, jeans (naturalmente) e, vezenquando, as coxas
do Wilson, um jogador de futebol que resolveu morar comigo há dois dias. Estou
fazendo ele mudar de idéia hoje. Vejo o sol, um céu azul (azul-Sampa, com limites,
claaaaaro) e uma roseira belíssima (daquelas pinks) que trato com desvelos
neurótico-possessivos. A casa é imensa, tenho quatro quartos e vizinhos ótimos —
uma atriz-cantora, Vera Barbosa, um publicitário-artista plástico, Gustavo, & um
diretor teatral, Roberto
Lage. Un petit Village. Daqui a pouco vou começar a ouvir a nova Laurie Anderson
e não páro mais. Quarta cheirei toneladas [...] e hasta hoy no me recuperei. Não
puedo me drogar. Questã de saúde, infelizmente: desequilíbrio total. Fico depois
comendo e vomitando sem parar, linha Petra von Kant.
Mas tchê, vai tudo de vento em popa. Fora o teatro, estou com TV,
roteirizando duas séries — uma, Joana, tipo Malu mulher, com Regina Duarte; outra,
Ronda, sobre Sampa, com Bruna e Ricceili, Para a segunda, já tive aprovado um
roteiro, A hora do capeta, que Paulo José gosta e quer dirigir. Axé! Para a primeira,
tenho a primeira reunião na terça-feira, vou apresentar duas sinopses ainda sem
título — uma delas sobre homossexualismo e suicídio & criação literária; a outra,
sobre sexo-por-telefone (como?) — digo, massagistas, aquelas coisas — a mãe da
Joana (que é uma jornalista), Cacilda Lanuza, entra numas com um profissional.
Táxi Boy — adoro essa expressão — tem uma música do Raul Seixas que posso
usar como fundo. Fui com Regina ver Caetano (lindo, decadentíssimo, bêbado,
analisado e blasé). Ele fará a música de abertura da série toda. Tenho andado
cercado de estrelas, e meu maior medo — agora que começou a chover na minha
horta — é virar moda besta. Me cuido, não viro arroz de festa, nem dou festas (só
dei uma e me arrependi a-mar-ga-men-te: cinco dias de faxina ininterrupta & o
último LP de Ro-Ro — em fase krishnapornô (inenarrável) — que desapareceu).
Bueno, com tantos agitos, a literatura tem ficado em segundo, quizás terzero,
plano. Quero dizer Passo da Cuanxuma. Luizar, TENHO QUE ENRIQUECER
COM URGÊNCIA. Não digo enriquecer, but. Pelo menos poder passar um ou
dois meses aí com vocês. Então vamos lá. TV é demência, mas a vida é demência, e
como a produtora é independente não tem massacre global, pode dar certo (as
séries serão exibidas — Joana a partir de julho, Ronda de agosto — na TV Manchete, América Latina & maybe Europa). Hope so. Cabeça cheia de idéias, mas
tantos amores, tantas sinopses, tantas faxinas (ando me virando com grana, a TV
não começou a pagar, só tenho biscates bons, mas irregulares), o tanque cheio e
tantos shows em SP e filmes e peças. Bueno. Quilombo do Cacá Diegues é uma
bosta: fantasia originalidade do Copacabana Palace perde; já Memórias del cárcere,
Nelson Pereira & Graciliano, é lindo y muy fuerte. Em cartaz tem repertório do
Antunes Filho com Romeu e Julieta com música dos Beatles (a última é A little help, a
primeira Here comes the Sun) — mais Nelson Rodrigues e Macunaíma. Inenarráveis.
Em Porto (alagada: o sertão vai virar mar) estive várias vezes com Clarissa,
mais linda que sempre, mas não com Rosinha Marcovici. Fui e voltei de Porto
inúmeras vezes. Agora cansei. Adoro Sampa. Amo Sampa. Só saio daqui pra New
York ou Passo da Guanxuma. Fui a Santiago do Boqueirão no Centenário receber
(com Romanita) o título de santiaguense ilustre, passei dois dias em Alegrete
(pensei no Guto o tempo todo, ganhei uma capa marroquina e viajei de cara limpa
o tempo todo), Uruguaiana, Itaqui, Santa Maria. Ah — a fronteira. É aí que você
entende Borges, fecha a Gestalt. Falar nessas, semana que vem começo curso de
terapeuta no Centro de Valorização à Vida, farei plantão telefônico uma vez por
semana. Estou trabalhando numa peça nova a chamar-se talvez Overdose, uma história
de amor, dedicada a Carlinhos Bartlieb. Ando feliz, cheio de fé, Fase new-wave,
escorregando às vezes para o after-punk, mas virginianos sempre acabam fazendo
uma faxina, fazendo a barba, lavando as meias, as cuecas, tomando vitaminas e
andando de bicicleta no parque. Graças a Deus — que existe e, lá de cima, tá vendo
tudo. Batalho ferozmente a minha paz. Descobri um motorista de táxi poeta,
fantástico e belo (tipo Giulianno Gemma), quero lançá-lo tipo Carolina Maria de
Jesus, cê acha que rola? Rock de garagem é o must aqui, o melhor é o Ultraje a
Rigor e o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. Caetano sempre na frente de todos
canta Podres poderes onde puteia do Papa Maria Wojtila a Décio Pignatari. Haja...
James Dean continua me olhando: ainda como este rapaz. Cuidado com as
emoções. Te amo sempre, meu irmão lindo, e à distância te beijo e ao Guto e ao
Paulo e à Rosinha (já voltou?) e a tudo mais. Axé.

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1 comentários:

  1. Rubens says:

    Cara que doideira...mas curti...